quinta-feira, 7 de maio de 2009

A Fiel Torcida

Tenho que aproveitar a conquista do título INVICTO de Campeão Paulista do meu querido time Corinthians pra pensar um pouco sobre fidelidade. Na verdade, olhando a alegria dos torcedores não tem como não pensar sobre o fato.

Há uma grande euforia sobre a vinda do Ronaldo, dando a ele muito do crédito para essa subida do Timão. Mas há fatos anteriores que marcam essa volta por cima. É claro que o talento desse jogador é fenomenal e a alegria que tenho ao assisti-lo nas partidas, só me faz pensar que é o jogador certo, na hora certa. Ele tem uma história parecida de soerguimento. Há um certo mutualismo no relacionamento dele com a torcida – o desejo de ser amado que qualquer pessoa almeja pra continuar e um amor irracional que a torcida tem por aquele que coloca o objeto de seu amor no lugar onde está agora. Ronaldo precisa da torcida do Corinthians e a Fiel precisa do Ronaldo, agora nesse tempo, que outrora foi difícil para ambos. Não sei, porém, até quando vai a fidelidade desse craque ao nosso time.

Como desejo falar sobre esse tema, deixo o Fenômeno de lado, pra falar sobre a Fiel Torcida. De início, a própria autodenominação caracteriza bem o que os “loucos” demonstram e demonstraram nessa trajetória de pouco mais de um ano. Mas, o que é ser fiel? Segundo o Minidicionário Houaiss*, há pelo menos 4 definições para o verbete:
1. que corresponde à confiança nele depositada (...)
2. exato, verdadeiro (...)
3. que se mostra constante (...)
4. que(m) segue os princípios de determinada religião. (p.347)

Não proponho aqui um teste de múltipla escolha, para que se encaixe o que melhor representaria a torcida do Timão. Mas se adentrarmos em cada uma dessas definições poderemos perceber conceitos interessantes ao olharmos o comportamento desses milhões de torcedores fiéis.

Iniciemos com a pergunta: A Fiel torcida corresponde à confiança nela depositada? Antes de afirmar levianamente, é necessário fazer perguntas anteriores – quem deposita confiança na Fiel torcida? Qual é a resposta? Poderia-se pensar que os dirigentes do clube depositam essa confiança, ou então o time de jogadores. Mas, o último dirigente do Corinthians, que aterrorizou nossa bancarrota, trouxe decepção e a crueldade de nos relembrar que tudo não passa de negócios em que o capital baliza as escolhas presentes em todo o mercado do futebol brasileiro. Acredito que o tipo de confiança que os dirigentes depositam nesses torcedores está mais relacionada ao tipo de lucro que estes proporcionam àqueles. Se for o time, composto por jogadores que hoje estão aqui, amanhã estão acolá, norteados pelo mesmo princípio do dinheiro que melhor avolumam suas contas bancárias, esvaziaria de sentido e emoção o adjetivo fiel que essa torcida recebe. Portanto, essa não é a definição para a alcunha.

Vamos fazer uma simbiose entre a segunda e terceira definição. Será a torcida “exata, verdadeira, que se mostra constante?” Bem, há tantas contradições na manifestação popular, tanto podemos ver uma comemoração feliz, tanto quanto desastres violentos antes, durante e após partidas que podemos inferir que a constância e exatidão também não é a sua característica. Alguns torcedores são irracionais, trazendo medo para aqueles que pacificamente desejam acompanhar um jogo de futebol num estádio. Por causa de um bando fanático, que não é a maioria da segunda maior torcida brasileira, temos recebido o estigma de “maloqueiros”, que só desclassificados são corintianos. Ser um time do povo é não ter classe? Que classe? A dominante? Responder essas perguntas pode fomentar um ensaio filosófico, que deixarei para filósofos opinarem então, o que não é o meu caso. Por ora, quero concluir que essas duas definições também não acordam com a torcida.

Tenho que admitir, por fim, que a Fiel é a torcida que fez do Corinthians uma religião. E por sinal, os torcedores admitem mesmo isso em seu grito de guerra. No pior momento do time que foi o rebaixamento para a série B do Campeonato Brasileiro surgiu uma força apaixonada que se movia debaixo do slogan “Eu nunca vou te abandonar”. A Fiel torcida não só falou, mas também fez. Chorou no último jogo, quando acabou a última esperança, permaneceu firme, abraçou a derrota e continuou em frente. Daí, acompanhou o time, foi onde o Corinthians jogou. Nunca a série B trouxe tanto lucro para televisão brasileira, graças a esses bandos de loucos que nunca deixaram de apoiar e acreditar. E também constrangeu outras torcidas. Quem terá coragem de diminuir seu time quando não suprir as expectativas, depois dessa demonstração corintiana? Quem terá coragem de abandonar seu time quando ele mais precisar? Essa foi uma doutrina religiosa que a Fiel deixou para os confessos de outros dogmas.

Estou muito feliz com o ressurgimento do Timão. Sou torcedora, mas o Corinthians não é minha religião. Mas o que minha religião, pode aprender com a Fiel? Será que nos momentos de dificuldade, quando chegar ao fundo do poço, ela dirá “nunca vou te abandonar?”.

É interessante, porque essa frase é bíblica. No Antigo Testamento, Deus disse a Josué: “Nunca vou te abondonar” (Josué 1:5) quando este foi incumbido de continuar uma grade tarefa deixada por seu antecessor Moisés. E o contexto que Deus traz à mente de Josué é sobre Quem Ele é: “que corresponde à confiança nele depositada, exato, verdadeiro, que se mostra constante”. A própria Bíblia também diz que mesmo que não sejamos fiéis, Deus permanecerá fiel, porque não pode negar-se a si mesmo (2 Timóteo 2:13). Ele sim é digno de confiança.

Posso enfim, aprender sobre fidelidade com a minha querida torcida Fiel. Mas o depositar fidelidade numa religião, quaisquer que seja, jamais farei. Pois o único que é verdadeiramente fiel, está longe dessas picuinhas religiosas. Então, apenas nos divirtamos com o futebol e aprendamos também bons valores com ele. E viva o título invicto!



*Houassis, A. e Villar, M. S. Minidicionário Houassis da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2008.

2 comentários:

Gil disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Gil disse...

Menina, sabe que há uns tempos atrás comecei a escrever um texto com esse mesmo tema, com o mesmo objetivo. Mas não consegui. Escrevi um monte de coisas e no final percebi que não tava conseguindo comunicar o que queria.
Puxa, agora vejo aqui o que queria dizer! Vou até deletar o texto lá dos rascunhos. Já está dito! Parabéns, Adri! Escreva mais, por favor!
Bjs!