segunda-feira, 19 de março de 2007

Culpa do Júlio Verne

Nesses dias vi um garoto com um livro do Júlio Verne e me lembrei com nostalgia (e um certo nó na garganta) de uma situação vivida com esse autor. Eu estava no último ano do Magistério. Mais especificamente na aula de Língua Portuguesa.
Como sempre estudei em escola pública, as minhas leituras sempre eram paralelas. Tenho que reconhecer publicamente o empenho do meu pai em sempre comprar livros e contribuir para esse meu saudável vício. O livro não fazia parte do trabalho, mas decidi incluí-lo para uma boa lição na minha vida.
Estudávamos uma das escolas da literatura e a professora pediu para fazer um trabalho ou um resumo sobre o tema. Era época de vestibular e eu estava lendo vários resumos especializados no meu cursinho, parecidos aos que a professora tinha pedido. Eu achava fascinante a forma como essas pessoas faziam analogias e escreviam de forma atraente sobre o tema. Na minha inocência literária, achei que fazer uma comparação com o enredo do livro enriqueceria meu trabalho, saindo da mesmice.
Pesquisei alguns comentários, fiz a comparação e construí um texto muito legal aos meus olhos. Tive tanto orgulho do meu trabalho em grupo que fiz sozinha (como toda nerd que se preza)! Entreguei e esperei com expectativa a nota.
Vi várias pessoas recebendo boas notas: 9, 8. Estava com muita esperança de tirar um 10, afinal eu tinha me empenhado muito pra isso. Até que recebi o trabalho com um 5! E um recado: “até parece que foi copiado”.
Fiquei arrasada! Tentei argumentar com a professora, mas ela não acreditou em mim. E como contra fatos não há argumentos, não pude fazer nada. Oh impotência discente! Então pensei: “foi culpa do Júlio Verne, quem mandou incluí-lo pra fazer bonito?”
Mas a minha lição maior com tudo isso foi a dor de fazer a coisa certa e não ser acreditada. Pelo menos, eu tinha conseguido minha intenção: eu estava tentando fazer algo de qualidade que a fez pensar que eu não tinha produzido aquele texto (se é que isso serve de consolo). Mas a que preço? Ela não sabia nada sobre o pano de fundo da minha criação, das minhas leituras, do meu desejo de não ficar fazendo o óbvio, apenas viu algo que não era o normal e julgou como inadequado, dando ao meu trabalho um status de cópia. Fato este, totalmente contrário a meus princípios nerdianos. Fiquei pensando naquela época: “se ela me conhecesse melhor nunca pensaria isso”.
Eu não só aprendi a lição como me apercebi mais claramente de que era e serei professora também ao longo da vida. Fui vítima e faço vítimas. Realmente tive um insight. Eu não era diferente!
Enfim, o ponto principal que quero salientar com essa situação é o que pensamos do outro a partir do que concluímos. Quantos conflitos nos metemos a cada dia porque não entendemos a intenção do outro, apenas julgamos a partir da nossa cosmo-particular-visão. E geralmente julgamento quase completo: fazemos alguém de réu, fazemos nossa própria acusação e depois condenamos a pessoa. Só esquecemos de um pequeno detalhe: a defesa. Há muito mais no coração do outro do que imagina nossa vã conclusão. Esse é um apelo para tentarmos ouvir mais as pessoas, pois podemos nos surpreender. Afinal, Júlio Verne não merece isso!

2 comentários:

Irene disse...

Perfeito, Dri! Em se tratando de defesa, "que sejamos nós os primeiros!" mas se aplicássemos esse direito primeiramente para com o nosso próximo, o mundo não precisaria mais de diplomatas...
Bjão!
(t admiro pacas!)

andré vhs disse...

Excelente, Adriana.
Excelente lição, professora.