Tenho pensado muito sobre as mentiras que nos contam. Mas não qualquer mentira. Estou falando de uma categoria específica de mentira. Não é sobre a mentira branca, nem a deslavada, muito menos a cabeluda. Estou pensando sobre a mentira de segurança.
Ela geralmente surge em época de caos e todos nós caímos nela pra sentirmos mais seguros. Um exemplo simples foi quando o presidente Lula dizia que a crise no Brasil era uma marolinha. Muito melhor acreditar nisso, porque dá segurança do que ser confrontado com a realidade.
A crise atual que abre espaço pra esse tipo de mentira é a gripe suína, que para ser politicamente correta com os porquinhos foi nomeada de Influenza A, ou simplesmente gripe A. Eu gostei da troca, eu gosto da letra A.
Por conta dela, já recebi milhares de emails encaminhados com o título: Dicas pra evitar gripe suína. Minto, recebi apenas alguns. Na verdade, dá pra contar numa mão. Acho que foram três. Mas eu levei muito a sério o primeiro e quase decorei todas as dicas.
Logo no início, foi muito importante receber os emails porque eu descobri que o contágio não se dava pelo ar, então eu não precisaria usar máscara. Mas algo me intrigou sobre a máscara nas dicas que li. Se eu não estivesse doente, o fato de usá-la tornaria o local úmido e muito mais propício para o contágio, visto que o vírus poderia ultrapassar a máscara e ali encontraria um ambiente perfeito para sua proliferação. Entretanto, porém, todavia, se eu estivesse doente, era melhor usar para não infectar os outros. Como assim? Se o vírus passa de fora pra dentro quando não estou doente, ele não passa de dentro para fora quando estou infectado? Não entendi...
Foi assim, que comecei a minha teoria:
As mentiras que nos contam para nos deixar mais seguros.
Comecei assim analisar algumas dicas na prática. Vamos ver algumas delas reunidas:
Você pega o vírus se tocar em algo infectado e depois colocar a mão em mucosas como nariz, boca e olhos. Por isso, lave a mão milhares de vezes ao dia e use o álcool em gel pois essa prática mata o vírus.
Agora, vamos ver como se dá o fato na prática:
Situação 1: metrô
Estava segurando o ferro do metrô, quando um senhor do lado tossiu e colocou a mão dele infectada bem do meu lado. Imediatamente, eu tirei a mão daquele ferro. Mas quantas pessoas já tinham feito o mesmo visto que no metrô de São Paulo passam cerca de 25 mil passageiros por dia? Eu pego naquele ferro contaminado em vários lugares porque é impossível se equilibrar sem tocar neles no metrô lotado. Daí, toco minha bolsa, meu casaco. Também é quase impossível me controlar e não pegar em nenhuma mucosa do meu corpo até o próximo lavatório disponível.Chego no escritório da CEPC e lavo minha mão. Mas e minha bolsa e vestimenta contaminada?
Situação 2: álcool em gel
Peguei meu álcool em gel. Contaminei-o. Limpei minha mão com ele, estou limpa. Guardei o álcool em gel. Estou contaminada de novo, pois a superfície exterior dele já está contaminada.
Situação 3: álcool em gel II
Limpei minha mão com álcool. Meu vizinho pede emprestado. Por educação e constrangimento, empresto. Ele estava contaminado. Então, me devolve. Eu toco na superfície que ele contaminou. Eu limpo minha mão de novo?
Situação 4: restaurante self-service
Estava na fila, o chinês da frente tosse e educadamente põe a mão na boca pra não tossir na frente da comida. A mesma mão que ele usou pra proteger, ele pegou a concha do feijão. Desisti de comer.
Enfim, cheguei a conclusão de que todas essas dicas são mentiras de segurança pra proteger a gente do inevitável: não estamos protegidos coisa nenhuma. Mas se cada pessoa fizer esse exercício maluco ficará neurótico e será instaurado o caos na sociedade. Por isso, é melhor mentir pra segurança e sossegar as pessoas do que enfrentar a verdade. E a verdade é que por mais que o ser humano tente acreditar, ele está num mundo em que não tem o total controle das coisas. Essa verdade traz a tona a crua realidade da nossa finitude diante das doenças, das catástrofes climáticas, da morte. É melhor não trazer à baila essa triste realidade humana. Por isso, o ser humano segue o princípio da mentira de segurança.
Mas Jesus disse:
Conhecerão a verdade e a verdade os libertará*.
E esse princípio que rege a cultura da sociedade é que cega os seres humanos da verdade libertadora: somos impotentes e não temos o controle de nada, especialmente sobre a vida e a morte. Para muitos homens e mulheres reconhecer isso trará o caos existencial pois a maioria deles tiram Deus da existência cotidiana. E a arrogância intelectual humana insiste em criar subterfúgios para se auto-enganar e se colocar como deus nessa era decaída. Precisa-se de coragem pra enfrentar a realidade.
Mas, se ao contrário, o reconhecimento aparecer, pode-se dar abertura para um Deus que está acima de nós, que é mais poderoso que nós. A verdade é que não conseguimos nos proteger verdadeiramente nem de um viruszinho invisível que tem poder de nos matar se encontrar o ambiente favorável. Enfrentar isso é muito doloroso. Mas também essa dor, pode nos levar a buscar e fazer a seguinte oração:
Deus, eu preciso da sua proteção porque sou finito e incapaz de me proteger sozinho.
Não quero me enganar, não preciso de mentiras.
Se eu estiver contigo, até da morte eterna estou protegido.
Eu sou livre pra assumir isso!
* João8:32